
Douglas Diegues - Marco, você me parece um poeta em trânsito entre várias culturas, um perseguidor incessante do outro e de você mesmo, um poeta de uma curiosidade infinita, artista da palavra, um fino crítico e tradutor de poetas como Khliébnikov e mais recentemente Rûmî, entre outros... Poderíamos começar falando de você?... Nasceu no Brasil... Como foi sua infância, formação literária, primeiras leituras, etc?
Marco Lucchesi - Sou filho de pais italianos, da Toscana. Nasci no Rio, tenho alma carioca e florentina. Amo profundamente o Brasil. Amo todas as partes do nosso drama. Todas. Que nenhuma fique de fora! Os ruídos que intempestivamente atravessam nossa cultura e nosso país. Sempre busquei a literatura. Foi uma tentativa de compreender o incompreensível, de traduzir o intraduzível, de afirmar o inafirmável. Constituiu-se, desde cedo para mim, esse jogo de impossíveis, de que a literatura era capaz de tornar mais forte com seu clarão. Minha infância foi marcada por uma intensa poesia existencial. Mudei-me para Niterói, aos 8 anos. Vivi coisas muito próximas de Os meninos da rua Paulo, tradução de Paulo Rónai, com quem compartilhei tal sentimento. O infinito. O espaço. Minha infância. Meu conflito. E Dostoiévski, em lágrimas. E Machado. E Júlio Verne. A historia de Monteiro Lobato. E as aventuras de Tim-tim a insistir com suas maravilhosas geografias. Sentimento das coisas que passam. Que me habitam. Francisco de Assis, e sua coragem. O rochedo Dante Alighieri, com a Divina Comédia e a poesia, meu Deus!, a poesia. Tanta poesia, até a descoberta reveladora de que a poesia podia ser vivida num ritual como o de Penteu, devorado pelas Bacantes. Aí, então, o renascimento. Meu Deus, minha infância!
DD - Ungaretti dizia que todo poeta resolve seu problema propondo-nos uma poética... Poderíamos falar da tua poética... O que é a poesia para você?...
ML - O homem moderno, como nos diz Nietzsche, não precisa criar senão uma genealogia, pois já existia — homem moderno — em Platão, nas páginas de Montaigne, no drama de Shakespeare, nos romances de Dostoiévski. A poesia deve, talvez, refletir essa cartografia do sentimento e do diálogo com as formas do infinito. Não apenas o passado, nem tampouco a arrogância do presente. Poesia como ainda-não. Trâmite explosivo, latente. O Sorriso de Mona Lisa. A Juventude, de Eliseu Visconti. Coisas na iminência de acontecer: possibilidades abertas, como a do Messias, tão esperado pelos judeus, e que a qualquer instante pode voltar pela janela do tempo. A poesia e a revolução coincidem.
DD - A vertigem dos abismos e dos desertos, o silêncio de Deus, o esplendor das luzes e das formas matemáticas, a solidão intransferível, a beleza e o mistério, o amor marinista e os poetas russos, temas de Bizâncio, seu livro de poemas, configuram uma mitologia pessoal... Fale-nos um pouco de Bizâncio...
ML - É longa minha mitologia, meus altares, minha atração pelos desertos, Deus, o silêncio de Deus. O problema de Deus, a sombra de Deus. O Oriente. O Oriente Próximo, intensamente próximo de mim, e o Brasil barroco. Bizâncio talvez tenha sido uma das formas secretas de conjugar a pluralidade que me encerra. Foi o livro que me converteu. Um livro que me trouxe de volta para mim. O regresso plotiniano à pátria perdida. Todos buscam seus portos nos mares do ser. Bizâncio foi a volta ao porto. A travessia desses mares, metaforizados no Mar Negro e no Mar Cáspio, nos Mediterrâneos muitos: o mediterrâneo das cidades orientais e o mediterrâneo da Baía de Guanabara. Nesses mediterrâneos e nessa poesia eu terei encontrado o meu rosto. Depois veio Poesie, em italiano (poucos poemas em árabe, duas vezes premiado, na Itália), cujas portas foram abertas a partir de Bizancio.
DD - Num mundo como o nosso, de consumismo desenfreado, de sucesso a qualquer preço, de submissão e desespero, de mercancia alucinada e economia fracassada, qual seria a função da poesia?
ML - A função da poesia me parece aquela de ser contracorrente. Resistência. Permanência. Donde minha paixão pela poesia e pela cultura popular, esteja onde estiver: no interior da Bahia, em Canudos ou Jeremoabo, em Catolé do Rocha (na Paraíba), ou em Guarapuava (interior do Paraná) Essas geografias me pertencem de modo profundo e nelas tenho encontrado uma poética de enfrentamento. Uma poética do tempo e do espaço. A poesia não servindo, necessariamente, para nada acaba por tornar-se tudo. Nas labaredas de Clarice Lispector. Na alquimia da palavra via João Cabral. Esta é a minha pátria. Meu país. A pátria do não, mas, ao mesmo tempo, a pátria do sim. A poesia, como fogo.
DD - Seu livro de poemas Alma Vênus será publicado em breve... Poderia falar um pouco desse novo trabalho...?
ML - Como definir aquilo que procuro, de todas as maneiras, deixar indefinido? Minha própria vida, a busca das coisas que me buscam, o movimento das ondas, o conhecimento da perplexidade com que se debate hoje a física quântica não mais assombrada pelo demônio de Laplace. Mas vamos aos fatos. Alma Vênus busca uma compreensão de uma natureza dividida entre indiferença e compaixão. São essas duas forças que completaram, aliás, o quadro da oposição Teilhard de Chardin e Jacques Monod. Sentimento da solidão e da natureza, de Deus e da existência, de que resulta o feminino, não necessariamente utópico e positivo, mas distópico e negativo, a natureza, mãe e madrasta, a natureza e suas ilusões, a permanência da vida e o abismo das coisas, de nossos desamores e de outras arqueologias, de cuja terra, esquecida, emergimos. É um livro de adesão e sentimento. Habitam-no poucos sonetos, formas amplas e o sentido musical que organiza minha expressão, Alma Vênus. Livro onde moro.
DD - O que é um bom poema para você, quais suas características? ... E um mau poema, o que seria?
ML - Recordo-me de Mário Quintana, quando afirmara que um bom poema não é o que lemos, mas aquele que nos lê. Difícil também não evocar Bandeira em Itinerário de Pasárgada, quando nos diz que o mau poema nos ensina muitas vezes mais do que uma acabada obra-prima. Por isso mesmo, a questão guarda não poucas dificuldades. De todo modo, em meu jardim poético, posso determinar as coisas que mais repercutem dentro de mim e aquelas que chegam pálidas, de modo que, à maneira de Leibniz, tudo é bom desde que saibamos as diferenças poéticas, manter o espanto e a admiração sem as quais não se pode viver estados de poesia.
DD - O que a palavra significa para você? Como é sua relação com as palavras?
ML - E penso em Manuel de Barros, em suas lesmas. E penso em Drummond, em seu dicionário. E penso em Cabral, com suas lâminas. As rimas pedrosas de Dante. Tenho amor e ódio à palavra. A palavra me consome enquanto a pronuncio. A palavra me oferece alturas, me promete vertigens. Não sei viver senão da palavra, que liberta e aprisiona o que tenho buscado. E, ao buscar, me perco, pois a palavra é mediação. Um princípio de unidade, uma centelha de luzes, que me permitem compreender algo do abismo. Meu Deus, já não poderia viver sem a palavra! A palavra sagrada. A palavra maldita. Minhas vísceras e meu coração. Minhas tentativas de poemas. Minha obstinação. “Palavras, palavras, que potência a vossa!”, dizia Cecília no Romanceiro.
DD - Uma de suas paixões parece ser a poesia e a língua árabe... Em Poesie você nos surpreende com alguns poemas escritos em árabe com tradução ao italiano (!) Poderia falar um pouco dessa poesia e dessa língua?
ML. - O oriente sempre exerceu sobre mim um fascínio tirânico. As solidões, as línguas e o deserto. Algo dessa atração está no livro Os olhos do deserto, onde me volto de modo exclusivo ao Levante. Também acaba de sair A Sombra do Amado, poemas de Rûmî. Começo, essencialmente, pelo árabe e, em segundo plano, mas não com

INTELECTUAL EXEMPLAR
Por JOSÉ CASTELLO
Marco Lucchesi é, num mundo em que o saber se fragmentou, se especiliazou, perdeu a noção do todo, um dos raros intelectuais completos que temos hoje no país - ou ao menos que aspiram à completude, mesmo sabendo que ela é impossível. Poeta, Lucchesi escreve uma poesia conectada não só ao mundo, mas às grandes questões que o permeiam, desde as

2 POEMAS DE MARCO LUCCHESI
Alef
virá
de algum lugar
perdido
virá
de um fosco
desabrigo
de frios
roseirais
de medos
ancestrais
virá
no assombro
do poema
virá
na forma
de uma anêmona
da funda
superfície
dos olhos
do deserto
virá
das níveas
afluências
no sal
das confluências
virá
de um verbo
reticente
de um novo
continente
das árvores
ilhadas
virá
das frias
enseadas
na língua
da serpente
(esparsos
temporais
perdidos
amanhãs)
virá
e logo
não seremos
o que somos
que o sol
de tanta espera
nos consome
Bet
tem rosto
a palavra
e
o luar
e
o sentido
como sol
atrás
das nuvens
como
peixe
dentro d’ água...
Somente
em Deus
repousam
muitos rostos
como se fora
a rosa
de uma rosa
a se esconder
na rosa
de uma rosa
e assim
ad infinitum
que o nada
só tem rosto
de escamas e de espinhos
De Alma Vênus [Editora Record]
Nenhum comentário:
Postar um comentário